Comércio justo, que valoriza a economia da floresta

Conheça o inovador modelo de negócios da Da Tribu, uma empresa que valoriza tanto as riquezas naturais quanto os povos da Amazônia 

São Paulo, 08/07/2020 

As empreendedoras Kátia e Tainah, da Da Tribu

A partir do látex desdobrado em fios emborrachados, a Da Tribu cria uma moda que valoriza a economia da floresta, gera renda e preserva a biodiversidade. A marca nasceu em 2009 pelas mãos da artesã Kátia Fagundes e tem como base a cooperação com famílias do povoado de Pedra Branca, na Ilha de Cotijuba, na Amazônia paraense.

O negócio é tocado por Kátia, que cuida da produção das peças, e sua filha Tainah Fagundes Pereira e Pereira, à frente da comunicação e comercialização. Desde o início, a empresa direciona 50% do valor das vendas para as famílias parceiras, que extraem o látex e confeccionam os fios usados na produção de colares, brincos, anéis, pulseiras e braceletes.

 

Tainah participou da 1ª edição do Empreender com Impacto no ano passado. Nesta entrevista, ela fala sobre o trabalho com a comunidade, os desafios trazidos pelo Covid-19 e como a empresa tem se movimentado para superá-los.

Como começou a história da Da Tribu?

Minha mãe fazia artesanato à base de crochê para manter a casa e os três filhos. Com o tempo, ela foi experimentando materiais recicláveis e, depois, o látex na confecção de peças. Passamos então a aperfeiçoar a produção, buscando parcerias com a comunidade ribeirinha de Pedra Branca que, com muita dificuldade, vivia dos seringais.

 

E essa parceria, como começou? 

Desde que iniciamos o trabalho com os fios emborrachados, em 2014, estabelecemos uma relação com duas famílias da comunidade. Até então, a única atividade econômica que elas tinham era a extração e a venda da seiva da seringueira. A gente levou a elas proposta de produzir o fio emborrachado, o que gerou um valor enorme para o trabalho que faziam, fortalecendo o protagonismo feminino com a inserção das mulheres da comunidade na cadeia produtiva, o que não acontecia até então.

As famílias com as quais trabalhamos são as de Manoel Magno, 70 anos, que é líder comunitário e trabalha na extração dessa matéria-prima há cinco décadas, e Corina Magno, filha mais jovem de Manuel, que coordena a tessitura dos fios de algodão orgânico banhado em látex. No total, 30 pessoas – 16 mulheres e 14 homens – tiram boa parte de sua renda dessa atividade atualmente.

 

Qual é o modelo adotado nessa relação?

Em primeiro lugar, eles não são apenas nossos fornecedores. São co-criadores, participam com a gente da missão de empreender com a sociobiodiversidade. Esse trabalho é extremamente desafiador tanto pela sazonalidade das matérias-primas quanto pelas dificuldades dos processos logísticos na Amazônia. Temos evoluído juntos. Adotamos, por exemplo, um processo de manejo sustentável que foi certificado pelo Amazon Rainforest Wild Rubber. Essas populações são guardiãs da floresta e podem construir uma nova perspectiva para ela, junto com os consumidores que escolhem produtos sustentáveis. 

 

Por que dividir as vendas em 50-50%?

Acreditamos que não há como um negócio se sustentar ao longo do tempo adotando os atuais padrões de acúmulo de capital. A riqueza precisa ser melhor distribuída na sociedade. Quando isso acontece todos nós ganhamos. Esse é um valor para nós, por isso, desde que começamos, a metade do valor de nossas vendas vai direto para a comunidade. A gente tem um processo de prestação de contas mensal transparente: enviamos os relatórios de vendas, os cálculos e comprovantes de depósito. 

 

Quais foram os impactos do Covid-19 para o negócio e para a comunidade?

Nossos produtos eram vendidos basicamente em lojas físicas em todo o Brasil. Com o comércio fechado, as vendas caíram quase a zero. Com isso, a renda de nossos parceiros também foi quase zerada. Quase 80% do que ganham vêm da parceria com a gente e os 20% restantes da venda de produtos locais e transporte em barcos de turistas que frequentam a Ilha de Cotijuba. Com a chegada da pandemia, a ilha foi fechada para turistas, interrompendo essas atividades. A população ficou fragilizada emocional e financeiramente e procuramos atuar para amenizar a situação.

 

Como vocês se articularam neste momento? 

Passamos março e abril dialogando com nossos parceiros, levando informação sobre a Covid-19, adiantamos algum recurso e permanecemos lá com eles, vivendo as dificuldades e procurando apoiar da maneira que podemos. Eles também se organizaram para se proteger, fabricando máscaras e ajudando-se uns aos outros. Manter o vínculo com a comunidade foi a nossa primeira preocupação, sempre com um olhar de cuidado, não de assistencialismo. Estamos juntos na forma de ver o mundo, sonhamos juntos.

A pandemia transbordou os excessos – de informação, poluição, de concentração de dinheiro – e procuramos levar essa discussão à comunidade. Para continuar dando suporte às famílias, lançamos em maio uma campanha de venda solidária, com kits dos produtos que temos em nosso catálogo. A meta é arrecadar R$ 50 mil até o final de julho. A metade desse valor será destinado às famílias e a outra metade à manutenção do negócio.

 

Você participou do Empreender com Impacto 2019. Como foi essa vivência?

Foi muito bacana. O programa incluiu um módulo sobre negócios de impacto que nos ajudou a olhar para o negócio, reconhecer e entender o valor das iniciativas socioambientais. Os conteúdos financeiros, de comunicação, estratégia e vendas também contribuíram bastante com nossos processos de gestão. O fato de ser online não prejudicou a atratividade, ao contrário. No final do curso, participamos do Prêmio Empreender com Impacto e ficamos entre os finalistas, o que foi um reconhecimento importante para nós.

 

Como foi, para vocês, abrir a loja no Mercado Livre?

Achamos a proposta da seção de produtos sustentáveis muito interessante e recebemos todo o suporte do Mercado Livre, inclusive consultorias em comunicação e comercialização de produtos online. A empresa tem um olhar para o ecossistema do empreendedorismo de impacto e atua de forma organizada em parceria com diferentes atores desse sistema, como a Plataforma Parceiros pela Amazônia. Assim que decidiram lançar o Meli Amazônia, passamos a fazer parte da iniciativa também.