Negócio livre de plástico

São Paulo, 11/09/2020

Jéssica (esquerda) e Patrycia, sócias da BeeGreen

Paixão pela ecologia levou empreendedoras a facilitar o acesso dos consumidores a produtos livres de plástico.

Jessica Pertile é bióloga, com pós-graduação em Gestão Ambiental. Trabalhou vários anos com o gerenciamento de resíduos ambientais em condomínios e eventos. Patrycia era estudante de Engenharia de Produção e trabalhava com comércio exterior. As duas tinham em comum o fato de serem mães preocupadas com o legado que deixariam para seus filhos, engajadas no ativismo ambiental em defesa da compostagem, do lixo zero e do fim do uso de plásticos descartáveis em Curitiba (PR), cidade onde moram.

Em 2015, decidiram transformar a paixão em negócio e começaram a planejar a criação de produtos que ajudassem as pessoas a colocarem a sustentabilidade em prática no dia a dia.

Um ano e meio depois, fundaram a BeeGreen, com uma linha de canudos em inox para substituir o de plástico. A empresa foi pioneira na fabricação do produto no Brasil, com vendas feitas no site e pelo Mercado Livre.

Quando o produto já estava no mercado, surgiu no Brasil a discussão sobre a proibição do uso de canudos plásticos, e o negócio cresceu rapidamente. A empresa diversificou a apresentação, com kits, escova limpadora e embalagens diferentes. O produto foi o carro-chefe da BeeGreen por dois anos. Entre 2016 e 2018, foram comercializados mais de 2 milhões de canudos em todo o país.

 

Novos produtos e canais de vendas

Em 2019, com a entrada de concorrentes nacionais e de outros países, as empreendedoras decidiram reposicionar o negócio. Passaram a fabricar, também, brindes ecológicos, ecobags, sacos reutilizáveis para frutas e legumes e alimentos a granel, talheres de bambu e outros itens de marca própria. Também começaram a comercializar algumas linhas produzidas por parceiros, como copos reutilizáveis fabricados pela Meu Copo Eco, camisetas ecológicas do Instituto Lixo Zero, panos de cera para alimentos da Keep Eco e composteiras da Morada da Floresta, além de livros.

 

Ao mesmo tempo, redirecionaram a estratégia para ampliar o acesso a produtos sustentáveis por parte das populações de pequenos municípios do interior. “Quem mora longe do mar não costuma associar seus hábitos de consumo com a poluição dos oceanos e do meio ambiente”, conta Jéssica. “Resolvemos, então, alcançar esses consumidores não pelo discurso da poluição, mas pelo discurso da sustentabilidade urbana, mostrando que a eliminação do plástico ajuda a cidade a ficar mais limpa.”

 

Para acessar esses mercados, a BeeGreen diversificou seus canais e locais de vendas. “A gente descobriu, por exemplo, que nossos produtos se encaixam muito bem em lojas de produtos naturais.” Esse entendimento levou a empresa a buscar parcerias com grandes redes de varejo para revenda de seus produtos. Ainda em 2019, a marca já estava presentes em mais de 300 lojas de produtos naturais em todo o país, incluindo aí a rede de lojas Mundo Verde e pequenos negócios.

Plástico zero

A BeeGreen tem um atelier próprio no bairro de São Francisco, em Curitiba, e conta com uma rede de fornecedores que manufaturam os produtos dentro da própria empresa. A maioria da equipe própria é formada por mulheres, que trabalham inspiradas por um código de ética e de direitos humanos. 

 

A matéria-prima empregada em todos os produtos é 100% brasileira – a única exceção é o fio de algodão orgânico usado em uma das bolsas, por falta de disponibilidade no mercado. A empresa trabalha preferencialmente com fornecedores locais, principalmente do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. “A gente acredita muito que a sustentabilidade tem a ver com quilômetro zero. Quanto mais perto, melhor, por conta das emissões do transporte”, situa Jessica. 

 

Outra preocupação é com a cadeia produtiva. A BeeGreen busca fornecedores com certificação ambiental e que usam recursos renováveis. O calor usado na fabricação do inox de seus canudos, por exemplo, é oriundo de carvão vegetal de florestas plantadas. 

 

A empresa não usa nenhum tipo de plástico na linha de produção e na distribuição dos produtos. As remessas são feitas em embalagens de papel com certificação do FSC, sem preenchimento interno com isopor ou plástico bolha. O lacre das caixas é feito com fita de papel kratf e cola branca, que são biodegradáveis, e a nota fiscal vai sem plástico protetor.

 

Mais negócios para gerar mais impacto

Esse jeito de trabalhar, segundo Jessica, tem feito um diferencial e tanto na conquista de parceiros interessados em se posicionar no mercado de produtos ecológicos. Antes da pandemia, os artigos da BeeGreen estavam presentes em quase 900 lojas da rede de farmácias Pague Menos, por exemplo. “Tem sido um aprendizado dos dois lados: o varejo aprende a lidar com produtos livres de plásticos, e nós temos aprendido a trabalhar com os grandes varejistas.”

 

Na pandemia, a empresa cortou investimentos em marketing e lançou novos produtos exclusivos para os varejistas. Bons exemplos são um kit com canudo de silicone para crianças e um canudo terapêutico, com biqueira de silicone, para pessoas que têm dificuldade para se alimentar.

 

Além de gerar novos negócios, a maneira como se posiciona tem atraído pesquisadores nacionais e internacionais, contribuindo para alimentar seu sistema de inovação. No ano passado, um grupo de estudantes de pós-graduação em inovação e sustentabilidade de uma universidade Suíça passou três meses na BeeGreen ajudando a organização a desenvolver novos produtos e serviços.