Casa Pretahub

São Paulo, 14/10/2020

Ecossistema de empreendedorismo negro voltado à economia criativa, produção de conteúdo e muito networking ganha sede em SP

Adriana Barbosa, CEO da Preta Hub e fundadora da Feira Preta

Recém-inaugurada na região central de São Paulo, a Casa Preta Hub representa a materialização de um sonho de Adriana Barbosa, fundadora da plataforma Preta Hub e  presidente do Instituto Feira Preta. Ela começou a empreender há 20 anos, vendendo, nas ruas e em feiras da Vila Madalena e de Pinheiros, as roupas que ela própria produzia. Hoje, Adriana é uma das principais vozes do afroempreendedorismo no Brasil.

 

Fundadora da Feira Preta, em 2002, ela contribuiu para consolidar o festival como a maior feira de produtos de empreendedores pretos do País. A edição de 2018, por exemplo, recebeu mais de 50 mil pessoas e movimentou R$ 700 mil. O evento, que sempre ocorre em novembro, quando é celebrado o Dia da Consciência Negra, agora se consolida como um local permanente de criatividade, inventividade e tendências pretas na Casa Pretahub.

 

Em um espaço de 530 metros quadrados, localizado no Vale do Anhangabaú, o hub oferece loja colaborativa, espaço maker, biblioteca, salas de coworking e de cursos, espaço de exposições, estúdio para gravação de podcasts e vídeos, salas de cursos e duas cozinhas, uma estruturada para a organização de eventos especiais de gastronomia e gravação de conteúdo, e a outra para ser explorada comercialmente por quem quiser vender seus produtos diretamente ao público.

 

Adriana compartilhou suas experiências em uma roda de conversa na edição 2020 do programa Empreender com Impacto e, nesta entrevista, conta sobre a nova Casa e o que esse espaço representa para o empreendedorismo negro no Brasil e na América Latina.

Como funciona a Casa Pretahub?

 

Por enquanto, na época da pandemia, a frequência da Casa é por reserva, com agendamentos feitos pelo site. No modelo premium, o uso dos estúdios de produção de conteúdo, como o de podcast ou o de vídeo, pode ser por 40 minutos a uma hora. Se o empreendedor precisar de apoio, temos uma rede de profissionais parceiros para ajudar com edição, roteiro e fotografia, por exemplo. São empreendedores negros atendendo empreendedores negros.

 

Parte da utilização é gratuita, parte é paga. O uso dos espaços comuns, como o coworking, por exemplo, é gratuito até uma hora, mas se o empreendedor quiser ficar o dia todo para trabalhar de lá, pode também locar a estação de trabalho. Oferecemos gratuitamente programas de mentoria e educação empreendedora por meio da plataforma online Afrohub.

 

A Casa oferece ainda consultoria imersiva para empresas que querem se aprofundar no letramento racial. Conversando, a gente se aprende no contexto corporativo. O espaço é voltado para quem quiser frequentar, artistas, intelectuais, influencers, pesquisadores e empreendedores dos mais variados ramos de atuação. É aberto à visitação e foi inaugurado com uma exposição do artista Moisés Patrício.

 

O que esse espaço representa?

 

Pessoalmente, representa uma vitória; a realização de um sonho. Para o afroempreendedorismo como um todo, representa ter continuidade, ter lastro e ter território para apoio à construção de um mercado inclusivo. A Feira Preta, que ocorria uma vez por ano, agora também estará presente de maneira permanente na Casa. Trabalhamos com o conceito de bioma de interação, estímulo e formação. 

 

Como será o Festival Feira Preta deste ano, diante do contexto da pandemia?

O festival será online este ano. Vai ocorrer de 20 a 28 de novembro. Agora tudo é digital, e estamos apoiando os empreendedores nessa migração para o ambiente digital.

 

Você já teve alguma iniciativa semelhante à Casa Pretahub?

Sim, criamos um espaço no início dos anos 2000, mas acabamos fechando. Na época, não tínhamos um plano de negócios estruturado. Aquela experiência nos ajudou a pensar nesse novo formato, aprendemos muito.

Como você avalia e evolução do afroempreendedorismo?

Muitas coisas evoluíram, e o crescimento é contínuo. A Feira Preta tem influências sistêmicas. Já replicamos o Afrolab, um programa de capacitação técnica e criativa para negócios, desde a idealização até o escoamento da produção, para 12 estados brasileiros, bem como para afro-bolivianos. Cada local tem suas especificidades de desenvolvimento territorial. Mesmo em outras culturas, os dilemas são os mesmos. Mas existe uma enorme riqueza, uma potência de expansão.

Como você vê o momento atual no Brasil?

A segunda maior população negra do mundo está no Brasil. O atual governo apresenta dificuldades, mas somos muito resilientes. Tivemos séculos de escravidão negra, e ela acabou há 132 anos. Até hoje lidamos com o racismo institucional e estrutural, mas seguimos evoluindo em décadas de oportunidades. Existem políticas públicas, há um projeto de lei para empreendedores negros tramitando no Senado, e em São Paulo, existe um Conselho voltado a esse debate. Existem também iniciativas regionais, como as apoiadas pelo SEBRAE na Bahia e no Rio de Janeiro.  Vamos continuar resistindo.

 

Quais os planos para o futuro? Existe alguma ideia de expansão?

Nosso plano para o futuro é que a gente consiga ampliar e replicar experiências como a da Casa Pretahub para outros estados do Brasil e para outros países. Já existe uma iniciativa que está se estruturando em Cachoeira, na Bahia.